PLUGAÇÃO

SALA DE REBOCO

Quase 60 mil trabalhadores conseguem emprego formal em abril


Quase 60 mil trabalhadores conseguem emprego formal em abril

Em abril, depois de seis meses de procura e dezenas de currículos enviados, Helem Rodrigues, 28 anos, foi contratada como vendedora em uma loja de roupas em Brasília. O salário fixo alivia as contas, após um semestre fugindo das dívidas. No  período, ela precisou trocar o carro por um modelo mais antigo, regrar as compras do supermercado e atrasar até o pagamento da mensalidade da escola do filho, de 10 anos.

 Os meses de dificuldade vividos por ela refletem bem a situação do mercado de trabalho no Brasil, que, após meses enfraquecido, começou a se recuperar em abril, de acordo com o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), divulgado ontem pelo Ministério do Trabalho. No mês, foram registradas 59,9 mil contratações formais a mais que demissões. A variação foi positiva em 0,16% em relação a março deste ano, que registrou 63.624 empregos a menos.

Apesar de o trimestre ainda estar negativo em 64,4 mil vagas, o aumento retoma o habitual desempenho positivo de abril, que não era visto desde 2014, quando gerou 105,4 mil postos de trabalho. Desde o início da série histórica, iniciada em 1992, o mês teve mais demissões que contratações apenas três vezes: em 2015 (-97,8 mil) e 2016 (-62,8 mil), por conta da crise, e em 1992, quando o país fechou 63.175 vagas. “Os resultados de abril são expressivos e animadores, indicam uma clara tendência de crescimento. É um sinal muito forte de que o emprego retoma a sua condição de normalidade no Brasil”, comemorou o ministro do Trabalho, Ronaldo Nogueira.

O saldo é resultado de 1.141.850 pessoas contratadas e 1.081.994 demitidas em abril. A maior parte desses empregos foi aberto no segmento de serviços, que teve o melhor desempenho no mês, com saldo positivo de 24,7 mil vagas. O setor foi puxado por serviços médicos e odontológicos, com 8 mil postos de trabalho a mais, seguido por transportes e comunicações (6,8 mil) e ensino (6,2 mil). No último, a alta foi influenciada pelo aumento da demanda por creches e ensino fundamental. “Tem mais pais colocando filhos na escola”, explicou o ministro.

“É mais fácil diversificar o portfólio de serviços do que de produtos, diante das novas demandas do mercado. É um setor que consegue se adaptar mais”, justificou o economista Felipe Leroy, professor do Ibmec-MG. O setor agropecuário também teve bom desempenho em abril, com saldo de 14,7 mil vagas, influenciado principalmente por cultivo de cana-de-açúcar e café, que, juntos, geraram 14,5 mil postos formais.

No mês, apenas a construção civil apresentou números negativos, de 1,8 mil vagas, devido ao ramo de construção de residências e edifícios, que ainda não se recuperou da crise. Essa retomada depende muito da confiança dos brasileiros na melhora da economia, observou Leroy. “No Brasil, é comum financiar imoveis a longo prazo. E, como as pessoas ainda não têm segurança de permanência no emprego, têm evitado comprar apartamentos e casas, porque essa é uma tomada de decisão que gera endividamento de longo prazo”, explicou. Apesar de ter tido resultado negativo, o desempenho da construção civil, em abril, foi melhor do que no mesmo mês do ano passado, quando perdeu 16 mil.

Varejo

No setor de comércio, o varejo começa a retomar os empregos, com saldo positivo de 6,6 mil vagas — o comércio atacadista teve queda de 1,3 mil. “Até então, o varejista tinha sido o grande vilão para a recuperação, sempre levava o número para baixo. Agora, podemos ver que puxou o comércio para cima, e isso tem a ver com um aumento do poder aquisitivo e com a redução da inflação”, disse o coordenador-geral de estatísticas do trabalho do ministério, Mário Magalhães.

O mesmo efeito foi observado na loja que Nalva Gervázio gerencia. Para lidar com o aumento das vendas observado no último mês, ela contratou uma nova funcionária e procura mais dois, que pretende empregar este mês. “Nós costumávamos ter 10 funcionários, mas, desde o ano passado, estamos trabalhando com apenas oito. Agora, vamos conseguir completar o quadro”, comemorou. Contratada em 18 de abril, Michele Marques, 23, ficou quatro meses procurando emprego até ser chamada para uma entrevista. “O seguro-desemprego estava acabando e eu já estava ficando preocupada. Não sabia como pagaria as contas”, lembrou.

“Esperamos que estes números positivos se estabeleçam”, declarou o ministro. Apesar de também estar otimista com o resultado de abril, Magalhães lembrou que “o mercado de trabalho é uma caixinha de surpresas”. “Se alguém disser que fez uma cronometria de resultado para algum mês, tem grande chance de errar. Não existe como fazer um modelo de projeção para o mês. É exercício de futurologia”, disse.

Reforma

O ministro do trabalho, Ronaldo Nogueira, aproveitou a coletiva de divulgação do Caged para defender a reforma trabalhista — em análise no Senado. Para ele, as mudanças propostas devem contribuir para a geração de empregos, e a terceirização, como definiu, é “um fenômeno global”. Segundo Nogueira, as leis foram criadas para que os trabalhadores tenham garantias. Ele ressaltou que a reforma estará ancorada em três eixos: consolidação de direitos, segurança jurídica e geração de empregos.